Norsul realiza 2ª edição do ‘Horizontes Femininos’ com agenda de debates sobre os desafios das mulheres na navegação
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Evento ocorreu em duas etapas na sede da empresa e contou com a participação de comandantes, oficiais, executivas e palestras de especialistas do setor
Com a busca por uma presença crescente e cada vez mais ativa no setor marítimo, as mulheres têm protagonizado debates fundamentais sobre equidade, assédio e transformação no mercado. Nesse contexto, a Norsul, em parceria com a WISTA Brazil, realizou a 2ª edição do ‘Horizontes Femininos’ — iniciativa que propõe a escuta e construção coletiva de soluções para os principais desafios enfrentados pelas profissionais da navegação.
O evento ocorreu em duas etapas, nos meses de abril e junho, na sede da Norsul. O encontro reuniu comandantes, oficiais, executivas e especialistas do setor, além de profissionais da Norsul, para debater temas fundamentais como o assédio e traumas no ambiente de trabalho, a invisibilidade técnica das mulheres e oportunidades escassas de ascensão, além da conciliação entre vida pessoal e embarques. As discussões foram realizadas por meio de rodas de conversa e oficinas, baseadas nas experiências reais das participantes, dando sequência ao diálogo iniciado em 2024.
Escuta ativa e identidade feminina em um mercado tradicionalmente masculino
A atriz Mariana Xavier conduziu a abertura da primeira etapa, trazendo reflexões sobre escuta ativa, impactos do machismo e a importância de manter a identidade feminina em ambientes com forte presença masculina. Mariana destacou que ocupar espaços de liderança não requer renúncia à essência, mas ações diárias de diálogo e troca de experiências.
Os relatos das participantes demonstraram que os maiores obstáculos vão além do assédio em si, envolvendo estruturas que silenciam ou relativizam essas violências.
“É difícil a gente começar a acreditar que os agressores não são monstros, são homens comuns”, ressaltou uma participante. Além disso, foram discutidos o machismo velado sob discursos meritocráticos e a solidão de ser “a única mulher a bordo”. A responsabilização institucional foi apontada como essencial para a transformação cultural do setor.
Dados e barreiras à liderança feminina
A nossa diretora de Gente, Gestão e Frota, Aline Carvalho, apresentou dados alarmantes que evidenciam os desafios enfrentados: apenas 15% das empresas têm equilíbrio de gênero na liderança; 66% das mulheres no setor marítimo já presenciaram assédio a bordo; e 25% consideram essas práticas comuns. Apesar dos avanços das últimas décadas, as mulheres continuam sendo minoria nos espaços de liderança — especialmente nos níveis mais altos, em terra e a bordo. Mas por que isso ainda acontece? E o que podemos fazer, de forma concreta, para mudar essa realidade?
A palestra propôs um mergulho em dados, conceitos e experiências para compreender como estereótipos de gênero, estruturas organizacionais e normas culturais silenciosas moldam o caminho das mulheres na liderança. Mais do que inspirar, a proposta foi provocar reflexão crítica, reconhecer barreiras estruturais e discutir caminhos possíveis — tanto individuais quanto coletivos — para uma transformação real. Entender é o primeiro passo para transformar.
Violência de gênero, trauma e assédio
A segunda etapa do ‘Horizontes Femininos’ contou com uma palestra da psicóloga Arielle Scarpati, PhD pela Universidade de Kent, nos Estados Unidos. A especialista trouxe para as participantes uma reflexão profunda sobre assédio, escuta qualificada e os desafios estruturais enfrentados por mulheres no ambiente profissional. Arielle iniciou desmistificando o “bom senso” como critério para identificar o assédio. Em seu lugar, propôs a observação de comportamentos não desejados e repetitivos, como comentários inapropriados, piadas, insistência em encontros e abuso de poder. A psicóloga ressaltou os impactos físicos e psíquicos do assédio, incluindo burnout, ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático. A escuta qualificada foi apresentada como ferramenta essencial de acolhimento e apoio, exigindo empatia real e ausência de julgamento. “Escutar é diferente de ouvir”, disse Arielle, reforçando a importância de validar sentimentos com frases como “Você não está sozinha” ou “Não é sua culpa”, em vez de questionamentos que revitimizam.
“Assédio não é assunto de mulher. É um problema social.”
Um dos trechos mais marcantes da palestra afirmou: “Três mulheres, três trajetórias. Uma denunciou no primeiro sinal, uma ficou anos em silêncio, uma ainda não reconhece que é violência. Todas estão certas, todas têm direito ao cuidado”. Arielle também discutiu o contexto sociocultural do assédio, destacando como mitos do estupro, padrões de beleza infantilizados, o consumo de pornografia e movimentos como o Redpill reforçam a objetificação da mulher. Por fim, alertou para o backlash que costuma seguir avanços nos direitos das mulheres e reiterou: “Assédio não é assunto de mulher. É um problema social”.
Soluções práticas construídas coletivamente
A etapa final de ambos os encontros foi dedicada ao estímulo de propostas para soluções práticas, construídas a partir das experiências e reflexões compartilhadas pelas participantes. Entre as propostas destacadas estão a criação de programas de mentoria entre mulheres da navegação, o fortalecimento de parcerias institucionais e a valorização das profissionais embarcadas como forma de incentivo à permanência na carreira.
Também foram sugeridas ações voltadas à transformação estrutural do setor, como a criação de grupos de letramento sobre assédio voltados ao público masculino, o reforço de políticas de compliance, a capacitação de lideranças para acolhimento institucional e a promoção de rodas de conversa durante o período de embarques, voltadas à escuta ativa e à integração das equipes.
Outro ponto destacado foi a importância da revisão de processos seletivos, com critérios mais inclusivos, metas de diversidade e políticas que incentivem a liderança feminina como estratégia de desenvolvimento humano e de negócio na indústria naval brasileira.
Caminhos para a transformação cultural
O evento também ressaltou iniciativas como o Guia de Enfrentamento ao Assédio da WISTA Brazil, as mentorias técnicas da Rede MAMLa e o indicador de participação feminina do Sindmar Mulheres (Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante), que destaca o crescimento da presença feminina na Marinha Mercante brasileira.
Mais do que protocolos, o setor necessita de mudanças culturais profundas, fundamentadas na escuta, na empatia e na coragem coletiva para enfrentar resistências e invisibilidades históricas.
Mobilização feminina como vetor de mudança
Aline Carvalho reforçou o papel da mobilização coletiva para a transformar o setor: “Grandes mudanças nascem de atitudes simples, mas consistentes. A escuta, a colaboração e a troca entre mulheres do setor marítimo têm o potencial de abrir caminhos para uma cultura mais justa e equitativa.” Mas para além dos espaços formais de escuta e acolhimento, também é fundamental que cada mulher reconheça seu próprio papel na construção dessa mudança.
No dia a dia, ações como apoiar colegas que enfrentam situações difíceis, participar de redes de fortalecimento mútuo, buscar capacitação constante e ocupar espaços com segurança e protagonismo ajudam a transformar, na prática, uma cultura que historicamente silenciou e excluiu. Pequenas atitudes cotidianas — como não se calar diante de uma injustiça, sugerir mudanças nos ambientes de trabalho e reivindicar equidade em processos e políticas — contribuem para que o setor avance de forma efetiva. Ao final da conversa, a mensagem que permaneceu foi a de que equidade de gênero, combate ao assédio e abertura de oportunidades exigem mais do que políticas formais: requerem escuta, coragem, ação e compromisso. Como concluiu uma das profissionais presentes: “Queria eu, quando mais jovem, ter um espaço como esse para falar sobre o que estava passando. Era tudo solidão. Agora, não é mais.”