A Vez das Barcaças

Norsul inova com a operação de transporte de toras de madeira em barcaças oceânicas e parte para um novo mercado na área de transporte marítimo

Publicado em:
01/11/2002

A Companhia de Navegação Norsul incorporou à sua frota em novembro um comboio articulado formado por três barcaças e um empurrador que irá transportar madeira entre o terminal que a Aracruz Celulose está construindo em Caravelas, no Sul da Bahia, e o porto da Aracruz (Portocel) em Barra do Riacho (ES). Em dezembro de 2004, deverão entrar em operação a quarta barcaça e o segundo empurrador previstos no projeto que atenderá à Aracruz Celulose. O empreendimento consumirá um total de US$ 30 milhões, sendo dois terços deste total fabricados no Brasil. A expansão da nova divisão da empresa começou antes mesmo da entrada em operação do primeiro comboio.

Norsul Caravelas
Barco pode detectar presença de baleias

Segundo o diretor da Norsul, Luiz Philippe Figueiredo, o projeto desenvolvido pela Norsul é inédito no Brasil e vem atender às novas necessidades logísticas das empresas, que buscam, cada vez mais, alternativas ao transporte rodoviário. No caso da Aracruz, o emprego das barcaças irá retirar 100 caminhões diariamente das es-tradas na primeira fase do projeto, que prevê a movimentação de 1,7 mil metros cúbicos de madeira por ano. A segunda fase, que permitirá o transporte de 3,4 mil metros cúbicos via cabotagem, dispensará outros 100 veículos/dia da operação. O sistema composto por dois empurradores e quatro barcaças terá capacidade para transportar cerca de 5,2 mil toneladas de madeira por viagem, a velocidade média de 12,5 nós.

O comboio será formado por uma única barcaça, conduzida pelo empurrador a ela acoplada através de pinos hidraulicamente operados. Esse acoplamento articulado, desenvolvido e fabricado no Japão, permite que o empurrador, ao chegar a um dos terminais, rapidamente atraque a barcaça no cais e se desconecte para se conectar à outra das barcaças que o aguardava para seguir viagem, mantendo o ciclo contínuo de operações. Também o sistema escolhido para o carregamento e o descarregamento da madeira nas barcaças através de carregadeiras móveis que acessam o convés da embarcação por duas rampas laterais, trouxe uma redução de custos portuários relacionados à mão-de-obra de estiva e padronizou os equipa mentos móveis com aqueles que a Aracruz já empregava em seus pátios de estocagem internos. A tripulação é de oito homens em cada empurrador.

O comboio foi projetado pela Projemar e construído no estaleiro Ilha, com recursos do Fundo da Marinha Mercante. O empurrador, de casco duplo, é equipado com dois motores MAK e propulsão total de 5.500 HP. A ponte integrada de navegação e as máquinas de leme são da Sperry Marine, representada no Brasil de baleias Pela Vision Marine. A classificação é da American Bureau of Shipping.

Segundo a diretora-geral da organização não-governamental, Instituto Baleia Jubarte, Márcia Engel, a Norsul demonstrou uma visão aberta e progressista sobre a questão ambiental e os possível impactos da sua atividade em Caravelas, que é um dos principais pontos de reprodução de baleias jubartes, espécie ameaçada de extinção no Atlântico Sul Ocidental. A estimativa é de que hoje circulem por lá cerca de 2,5 mil baleias da espécie. O projeto do terminal de barcaças foi apresentado aos ambientalistas, que deram sugestões à empresa. “Após realizarmos levantamentos aéreos e marítimos da região, sugerimos inicialmente que a rota das barcaças fosse realizada a uma distância de 10 a 15 milhas da costa, o que foi imediatamente acatado pela empresa, embora estejam autorizados a trafegar a qualquer distância da costa”, explica Márcia Engel. A proa Pro do empurrador é equipada com um sensor que detecta a presença de baleias, evitando assim o risco de acidentes.

De acordo com Luiz Philippe, a intenção da Norsul é desenvolver novas soluções logísticas para o transporte de diversas cargas a partir do projeto dos comboios oceânicos. “É uma nova área de negócios a qual iremos nos dedicar, além do trans-porte de granéis sólidos e de carga geral. Há um grande potencial de crescimento nesse novo nicho de mercado. São muitas as vantagens das barcaças em relação aos modais tradicionais”, acrescenta Figueiredo, destacando o frete reduzido devido ao baixo custo operacional. Outra vantagem é que o comboio pode frequentar portos com profundidades menores no canal de acesso pois calam apenas quatro metros.

Norsul 2
Projemar assina projeto de barcaças

A Norsul foi responsável pela concepção de todo o projeto, incluindo os terminais de expedição e recepção das toras de madeira que alimentarão a fábrica da Aracruz. Entretanto, como já possui o terminal especializado Portocel, a Aracruz comprou o projeto dos terminais e o terreno de Caravelas, tornando-se responsável pela cons trução do novo terminal onde a carga será embarcada e pela adaptação das instalações da Portocel para a descarga da madeira. O terminal de Caravelas deve ser inaugurado em dezembro.

Luiz Philippe conta que a empresa pretende desenvolver projetos específicos na cabotagem para viabilizar novos empreendimentos. Até mesmo contêineres poderiam ser transportados nas barcaças. Para tanto, a Norsul está estudando a viabilidade econômica do sistema. “Não descartamos nenhuma possibilidade, mas a distância econômica para o sistema de barcaças oceânicas precisa ser estudada. Temos que saber até que ponto ele é mais eficiente que os navios. Já sabemos que o frete de cabotagem em navios não é viável em determinadas distâncias, como a rota entre o Sul e o Sudeste, por exemplo. É com este foco que queremos trabalhar”, conta o diretor da Norsul, lembrando que estudos realizados nos Estados Unidos mostram que o sistema é eficaz para distâncias de até três dias de viagem. Com transit time de 12 horas em cada sentido, o case Aracruz permitirá uma redução de 20% nocusto de transporte das madeiras para a empresa. Já no caso da CST, o tempo de trânsito seria de dois dias e meio em cada sentido.

Filhotes. O mesmo projeto foi oferecido para a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), que já assinou pré-contrato com a Norsul para o emprego de quatro barcaças de 10 mil toneladas e dois empurradores para transportar bobinas de aço entre Vitória e São Francisco do Sul (SC), onde está sendo construída a siderúrgica da Usinor. A perspectiva é de que sejam transportadas um milhão de toneladas anuais no trajeto. Se concretizado, o projeto absorverá cerca de US$ 40 milhões.

Créditos:
Revista Navios e Portos